segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Sobre este blog

Muitas pessoas quando questionadas sobre suas profissões, ou sobre algum de seus hobbies, sempre mencionam como fonte de inspiração, alguém da família ou algum amigo próximo. Chefes de cozinha por exemplo... - Ah aprendi a cozinhar desde cedo, acompanhava minha avó ou minha mãe na cozinha. Ou, me tornei uma grande leitora ou escritora porque minha casa desde a infância era repleta de livros, e meus pais liam o tempo todo e ainda me incentivaram a começar desde cedo.

Gente, posso dizer honestamente, que sou uma total exceção a esta regra, rsrsrs.

Hoje trabalho com bolos e doces, mas até uma certa época da minha vida, confesso, fazia apenas o básico feijão com arroz. Embora minha mãe fosse cozinheira de mão cheia.

Livros? Leitura? Apesar de todos na minha casa terem formação superior, ninguém exceto eu,  são muito dados a leitura. Sempre li, e comprei livros por iniciativa própria, enquanto meus irmãos não saíram dos livros obrigatórios de escola.

Na época de escola,  eu adorava ir à biblioteca, vivia com a carteirinha de empréstimos sempre cheia de carimbos, enquanto colegas nem chegavam perto do lugar.

Enfim, e acho que este post talvez devesse ter sido o primeiro do blog, a intenção é me apresentar ou apresentar o porque da vontade de escrever este blog. Talvez eu não tenha feito isso antes porque eu pensei em fazer algo com uma "cara" mais profissional e menos pessoal.

De qualquer forma, os livros sempre foram uma paixão, em alguns momentos mais latente que em outros, mas constantemente presente. E mais recentemente, surgiu uma vontade imensa de compartilhar minhas leituras /impressões com outras pessoas, e por que não, também aperfeiçoar a minha escrita? Por isso criei este blog.

Admito, não sou tão novata em blogar, mas até então era para a divulgação dos itens que produzo no ateliê, ou seja, um perfil totalmente diferente deste. E é por isso, que ainda estou afinando como o Leitura por Escrito vai funcionar, se colocarei apenas resenhas de livros, ou notícias do mundo literário, ou se mesclarei opiniões pessoais sobre qualquer outro assunto que eu considere que valha a pena. Afinal, o universo de possibilidades é imenso, certo?

Portanto, peço um pouquinho de paciência para quem eventualmente estiver me acompanhando por aqui. E claro, sugestões, sempre serão muito bem-vindas!

Até a próxima. 😉



domingo, 20 de novembro de 2016

Resenha: Extraordinário - R.J. Palacio

 

" Sei que não sou um garoto de dez anos comum. Quer dizer, é claro que faço coisas comuns. Tomo sorvete. Ando de bicicleta. Jogo bola. Tenho um Xbox. Essas coisas me fazem ser comum. Por dentro. Mas sei que as crianças comuns não fazem outras crianças saírem correndo e gritando do parquinho. Sei que os outros não ficam encarando as crianças comuns aonde quer que elas vão."

É assim que começamos a leitura do livro, o qual vai nos contar a história de August (Auggie) Pullman, que em virtude de uma síndrome genética, tem uma deformidade facial severa, já tendo passado por diversas cirurgias, além de algumas complicações médicas. Por isso, até então, ele estudava em casa, sob a tutela de sua mãe. 

Mas agora, Auggie deve enfrentar mais um desafio: estudar numa escola de verdade, o que à princípio mostra-se uma tarefa nada fácil, afinal, como convencer as pessoas de que apesar de sua aparência incomum, ele é um garoto igual a outros de sua idade?

Bem, o livro vai então estruturar-se à partir das narrativas do próprio Auggie, e também de outros personagens: 

Olivia (Via) - irmã de Auggie, 
Summer e Jack - amigos da escola, 
Miranda - amiga de infância da Olivia 
Justin - namorado da Olivia

Ou seja, temos a perspectiva dos mesmos fatos sob pontos de vista diferentes, o que será fundamental para compreensão de algumas questões/dilemas próprios de cada personagem e também de suas relações uns com os outros.

E neste contexto há ainda, ótimas referências inseridas pela autora ao longo do texto, sejam elas sobre livros, filmes ou música, pertinentes e muito simbólicas. Alguns exemplos: "O Pequeno Príncipe - Antoine de Saint-Exupery", "Hamlet - W.Shakespeare", "Star Wars", "Wonder - Natalie Merchant", entre outros.

É preciso também salientar, que além do explícito bullying, outros temas serão tratados ao longo do texto, inclusive com muita delicadeza, como por exemplo: amizade, gentileza, família, adolescência, relacionamento entre pais e filhos, condição social/financeira... 

APARÊNCIA

"Eu gostaria que todos os dias fossem Halloween. Poderíamos ficar mascarados o tempo todo. Então andaríamos por aí, e conheceríamos as pessoas antes de saber como elas são sem máscara." (Auggie)

"Voltar para casa depois de quatro semanas foi muito estranho no começo. Lembro-me muito vividamente de cruzar a porta e ver August correndo para me dar as boas-vindas, e de por uma fração de segundo enxergá-lo não do jeito como sempre tinha enxergado, mas como as outras pessoas o viam."  (Olivia)

FAMÍLIA / PAIS E FILHOS

"para ser sincero, não estou acostumado a receber tanta atenção. meus pais não tem a menor ideia do que eu quero fazer da vida. nunca perguntam. nunca conversamos desse jeito. acho que eles nem sabem que troquei meu violino barroco por um de oito cordas dois anos atrás." (Justin - no livro, o texto não faz distinção entre maiúsculas nem minúsculas, mesmo para os nomes próprios).

"na família da olivia eles dizem amo você uns para os outros o tempo todo."
"não me lembro da última vez que alguém da minha família me disse isso." (Justin)

GENTILEZA

"-Mas em outro livro J.M. Barrie,  chamado O pequeno pássaro branco, ele escreve... - O Sr. Buzanfa começou a folhear um pequeno livro até encontrar a página que estava procurando, e então voltou a pôr os óculos. "- Vamos criar uma nova regra de vida...sempre tentar ser um pouco mais gentil que o necessário?"

Mas, sem dúvida, o tema mais importante: refletir sobre quem somos nós. Afinal, podemos ser definidos apenas por nossa aparência? 

Neste sentido, são muito bacanas as reflexões trazidas aos alunos pelo professor de inglês, o Sr. Browne, através do que ele chama de preceitos.

PRECEITOS

"Preceito de Setembro do Sr. Browne:
Quando tiver que escolher entre estar certo e ser gentil, escolha ser gentil."

"Nesse mê, o preceito do Sr. Browne foi:
Seus feitos são seus monumentos.
...
Esse preceito significa que deveríamos ser lembrados pelas coisas que fazemos. Elas importam mais do que tudo. Mais do que aquilo que dizemos ou do que nossa aparência. As coisas que fazemos sobrevivem à nós."


Assim, seja você um adolescente, jovem ou adulto este é um livro que, sem dúvida, trará a você boas reflexões.


Fica a dica. Boa leitura!



"Extraordinário" - R.J. Palacio - Tradução: Rachel Agavino

Páginas: 320
Gênero: Ficção Americana
Formato: 16 x 23 x 1,7 cm
Editora: Intrínseca
Lançamento: 2013

R.J. Palacio atua no mercado editorial norte-americano há mais de duas décadas, atualmente com dupla função: designer gráfica durante o dia, e escritora à noite. Ela mora em Nova York com o marido, os dois filhos e dois cachorros. Este é seu primeiro livro. Para difundir a mensagem de Extraordinário, a auotra iniciou uma campanha antibullying no site: www.choosekind.tumblr.com da qual milhares de crianças já participaram. 

domingo, 6 de novembro de 2016

Resenha para "A garota no trem" - Paula Hawkins

O livro, à princípio, nos apresenta a história de Rachel, uma mulher agora divorciada e alcoólatra.

Rachel, embora desempregada, diariamente, pega o trem como se continuasse indo para o trabalho. Neste trajeto, além de visualizar sua antiga casa, onde agora mora o ex-marido com sua nova esposa e filha, ela também observa poucos metros à frente, a casa de um casal, que aparentemente é perfeito e acima de quaisquer suspeitas. 

À partir do desaparecimento de Megan Hipwell, a esposa perfeita do casal aparentemente perfeito, a vida de Rachel sofre mudanças.

O livro então, vai ser construído à partir da narrativa das três personagens femininas principais, a própria Rachel, Megan, e Anna, a esposa de Tom, ex-marido de Rachel.

Esta abordagem é interessante, e inclusive nos remete a outros livros que se utilizaram do mesmo recurso, como por exemplo: "Garota Exemplar" - Gillian Flynn e também "Destinos e Fúrias" - Lauren Groff, em que temos a história ora narrada pelo marido, ora narrada pela esposa, e no último, o livro é literalmente dividido em duas partes, a primeira feita pelo marido, e a segunda, pela esposa.

Mas, voltando ao "A garota no trem", o livro vai então intercalar a narrativa dessas personagens, apresentando no topo da página o nome de quem está contando os fatos, seguido da data e o período do dia (manhã, tarde e/ou noite).

Mesmo quando está contando a história sob seu próprio ponto de vista, Rachel nos é apresentada como alguém com baixa auto estima e com uma vida nada invejável.


"No trem, as lágrimas vêm, e não ligo se tem gente olhando; talvez pensem que meu cachorro foi atropelado. Ou que fui diagnosticada com alguma doença terminal. Ou que sou alcoólatra estéril, divorciada e prestes a morar embaixo da ponte.

Quando paro e penso, vejo como é ridículo. Como cheguei a esse ponto? Fico me perguntando quando foi o início da minha decadência;"
"Vou contar tudo: que perdi meu emprego meses atrás, que sábado à noite eu estava muito bêbada e que não tenho a menor ideia da hora que voltei para casa."

Megan, a "esposa perfeita", também em suas próprias palavras apresenta uma verdade diferente da imaginada por Rachel.


" E não posso nem me zangar com ele, porque ele tem razão em desconfiar  de mim, Já dei motivo para isso no passado e provavelmente vou dar de novo. Não sou uma esposa modelo. Não sei ser."(grifo meu)


E não somente em relação a sua personalidade como também em relação ao seu relacionamento com Scott, o marido.


"O comportamento que você está descrevendo...ler seus e-mails, revirar seu histórico de navegação...você fala como se fosse comum, como se fosse normal. Não é, Megan. Não é normal invadir a privacidade de alguém nesse grau. Muitas vezes isso é visto como uma forma de abuso emocional."


Numa de suas viagens dentro do trem, Rachel flagra Megan, beijando apaixonadamente um homem que não é seu marido. Na sequência, numa noite de sábado, Megan sai de casa, após uma briga com Scott, e simplesmente desaparece.


À partir daí, surgem suspeitos, e um deles é Rachel. Mas, como estava muito bêbada, não lembra de nada do que tenha ocorrido naquela noite. Diante disso, ela busca meios de auxiliar para que encontrem Megan, estabelecendo um grande jogo de quebra-cabeças, no qual se torna uma de suas principais peças.


Claro que a coisa toda do thriller policial é sem dúvida o principal mote e um dos grandes atrativos do livro. No entanto, é relevante levantar algumas questões também presentes ao longo do texto.


Dentre elas:


1) Alcoolismo, como é relação do alcoólatra com o vício, como este se manifesta e principalmente como a pessoa viciada se vê no mundo, no relacionamento com os demais e consigo mesma.


"A Rachel bêbada não mede as consequências, ela é excessivamente expansiva e otimista ou envolta em ódio. Ela não tem passado, nem futuro. Ela existe só naquele momento."


"Não sei. Não sei onde foi parar aquela força, não me lembro do momento em que a perdi. Acho que, com o passar do tempo, ela foi se dissipando, pouco a pouco, pela vida, pelo fardo de vive-la."


2) Maternidade, tema que permeia toda a narrativa, e fator importante ou no mínimo relevante na personalidade das três personagens.


"Talvez tenha sido aí. Talvez tenha sido esse momento em que as coisas começaram a degringolar, o instante em que nos imaginei não como casal, mas como família;" (Rachel)

"Eu me sentei num banco à beira desse espaço e fiquei observando mães e babás brigando com seus estorvos por comerem a areia do tanque. Alguns anos atrás eu sonhava com isso." (Rachel)

"Ele se decepcionou comigo. Nunca entendeu como é possível sentir saudade do que nunca se teve, e ainda chorar por isso." (Rachel)


"De vazio, eu entendo. Começo a achar que não há nada a se fazer para preenchê-lo. Foi o que percebi com as sessões de terapia: os buracos na sua vida são permanentes...você se molda a partir das lacunas." (Megan)


"Foi quando eu estava lavando o rosto depois, quando vi minha aparência cansada, o rosto marcado, manchado, uma aparência horrível, que senti aquilo de novo - a necessidade  de pôr um vestido e um par de sapatos de salto alto, fazer escova no cabelo, aplicar maquiagem e andar pela rua, os homens virando a cabeça para me ver passar." (Anna)


"Não é do trabalho que sinto falta...Tenho a convicção de que não há trabalho mais importante do que criar um filho, mas o problema é que esse trabalho não é valorizado." (Anna)


3) Violência Doméstica/Ciúmes/Abuso Emocional


"Minha mão faz toda força possível contra seu peito, mas não consigo respirar e ele é muito mais forte que eu. O antebraço dele pressiona minha traqueia, sinto o sangue pulsando nas têmporas, a visão esmaecendo."


4) Adultério


"Eu gostava de ser a outra. Adorava, na verdade. Nunca me senti culpada. Só fingia sentir." (Anna)


5) Mitomania - Na mitomania o paciente usa a mentira de forma consciente para enganar pessoas e tirar vantagens, ele nunca admite suas mentiras embora tenha plena consciência de que são histórias imaginárias, e também não se constrange quando suas mentiras são descobertas (fonte: www.tuasaude.com).


"Ele é um mentiroso nato. Já o vi em ação"

"Ele me engana sim. Sei que ele não é sempre cem por cento honesto a respeito de tudo. Penso naquela história dos pais dele - que ele os convidou para o casamento, mas eles se recusaram a comparecer por estarem com raiva...Sempre achei isso estranho..."

Assim, a história mesmo contada sob pontos de vista diferentes, é verossímil, consegue prender a atenção do leitor, e só vem reforçar velhos e conhecidos ditados como "As aparências enganam" ou "As coisas não são como são, mas como a gente as vê".

"Tenho uma lembrança cristalina de Scott falando sobre Megan, dizendo: Eu não tenho ideia de quem ela era. É exatamente assim que me sinto."

"...falsidades e meias verdades criadas para fazer com que parecesse uma pessoa melhor, mais forte e mais interessante do que realmente era. E eu engoli todas elas, caí em cada uma."

Fica a dica, boa leitura!



"A garota no trem" - Paula Hawkins - Tradução: Simone Campos

Páginas: 378
Gênero: Thriller
Formato: 16 x 23 x 2,1 cm
Editora: Record
Lançamento: 2015



Paula Hawkins é jornalista. Nascida e criada no Zimbábue, é radicada em Londres desde os 17 anos. Trabalhou como jornalista durante quinze anos antes de se tornar escritora de ficção. A garota no trem é seu primeiro livro policial e teve seus direitos adquiridos pela Dreamworks.






























quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Resenha para "F de Falcão" - Helen Macdonald


Como conta nesta entrevista, Helen, que além de escritora, é também poeta, ilustradora e historiadora, após a súbita perda do pai, decide se reaproximar de uma antiga paixão: a falcoaria. A partir da delicada relação com um açor, ave de rapina das mais selvagens, a autora reflete sobre o luto em F de Falcão.

Helen ainda declara:


“O falcão representa tudo para mim. Não há nada na minha vida além deles. O falcão foi uma maneira de escapar e de literalmente voar do fato de que meu pai havia morrido e foi uma fuga de mim mesma. Eu estava quebrada, não queria me sentir humana novamente. Foi uma fuga para a natureza, para o selvagem que serve também para fugir um pouco da sociedade e encontrar o seu caminho e se curar. Há ainda o fato de o falcão caçar e isso é um conflito/embate diário com a morte, o que também é muito importante. Esse não é um daqueles livros que você chega e diz ‘eu estava triste e comprei um falcão e fiquei feliz novamente."


De fato o livro nos mostra esta fuga. A autora se isola com o seu Açor, no que de início seria uma fuga de si mesma e do mundo como o conhece. Quando finalmente está só, é que enfim começa a pensar no pai:


"...Agora podia pensar no meu pai. Comecei a considerar como ele lidava com a dificuldade. Colocar um lente entre si mesmo e o mundo era uma defesa contra mais do que o perigo físico;" ..."Vejo o mundo através de uma lente, disse ele certa vez, de modo um pouco triste, como se a câmera estivesse sempre lá, impedindo-o de se envolver, algo entre ele e a vida das outras pessoas."

Como uma válvula de escape, para não ter que lidar com o luto, ela se impõe então, o desafio de treinar a ave, o que se torna seu principal objetivo, embora em alguns momentos, sinta-se perdida.

"Desde a morte do meu pai, por vezes tenho tido a sensação de estar deslocada da realidade, estranhos episódios nos quais o mundo torna-se irreconhecível."

Para este treinamento, a autora vai se utilizar de todo o conhecimento adquirido tanto na prática quanto em livros, entre os quais, sua principal referência, é "The Goshawk", de T.H.White.

"White não sabia disso, e é por isso que sua primeira tentativa de chamar Gos é tão dolorosa de ler. Mas, o que mais me incomodou naquele lamentável episódio não foi a espera que nada ensinou ao falcão,  nem o sádico  puxão do fiador que lançou a pobre ave ao chão."

Entende-se que em alguns momentos são até interessantes e necessárias, as citações sobre White, embora em outros, tornem-se cansativas e irrelevantes.

Outro elemento por vezes cansativo ao longo do texto, são as meticulosas descrições acerca das técnicas da falcoaria, que para um leitor mais leigo, torna o livro um pouco "arrastado", motivando-o a talvez "pular" tais parágrafos (Não "pulei" nenhum, rsrsrs).

"Meus dedos tremem enquanto passo a ponta do fiador através do destorcedor e fixo este na extremidade dos jesses, amarrando com dois pequenos nós de falcoeiro...Solto o fiador mais uns cinco metros e guardo o restante dentro de um bolso com zíper no meu colete de falcoaria, para mantê-lo seguro.Depois separo a leash da ave do destorcedor e enfio em outro bolso."  

O ponto forte do livro é a estreita relação que se estabelece, aos poucos, entre a autora e sua ave, Mabel.

"Não havia alento maior para o meu coração em luto do que ver o açor atender ao meu chamado. Porém, era difícil agora, fazer qualquer distinção entre o meu coração e o da ave."

"Eu me sentia incompleta quando o açor não estava pousado no meu punho: éramos parte um do outro. O luto e o açor conspiraram para que essa estranha sensação surgisse."

Interessante também observar o quão difícil pode ser o diagnóstico de um quadro de depressão, principalmente após a morte de um ente querido, pois associa-se a tristeza e a apatia ao luto recente.

"Há uma época na vida em que você espera que o mundo seja sempre cheio de coisas novas. E, então, um dia você percebe que não é assim de jeito nenhum. Coisas que estavam lá e não estão mais. E entende, também, que precisa crescer nos espaços em torno deles, embora possa estender a mão na direção de onde as coisas estavam e sentir aquele vazio, tenso e brilhante, do lugar em que permanecem as memórias."

Bem, para finalizar, no desenrolar da narrativa percebe-se que na verdade o livro não trata de uma fuga, e sim da busca de si mesmo, e como isso pode ocorrer de forma inesperada.


"Eu tinha pensado que para curar a minha dor, deveria fugir para a floresta. Era o que as pessoas faziam. Os livros sobre natureza que eu tinha lido me diziam isso. Muitas buscas descritas em suas páginas foram inspiradas pelo luto ou pela tristeza.""Agora eu sabia o que isso era de fato: uma mentira fascinante, mas arriscada."




"F de Falcão" - Helen Macdonald - Tradução: Maria Carmelita Dias

Páginas: 288
Gênero: Não Ficção
Formato: 16 x 23 x 1,6 cm
Editora: Intrínseca
Lançamento: 08/06/2016