quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Resenha para "F de Falcão" - Helen Macdonald


Como conta nesta entrevista, Helen, que além de escritora, é também poeta, ilustradora e historiadora, após a súbita perda do pai, decide se reaproximar de uma antiga paixão: a falcoaria. A partir da delicada relação com um açor, ave de rapina das mais selvagens, a autora reflete sobre o luto em F de Falcão.

Helen ainda declara:


“O falcão representa tudo para mim. Não há nada na minha vida além deles. O falcão foi uma maneira de escapar e de literalmente voar do fato de que meu pai havia morrido e foi uma fuga de mim mesma. Eu estava quebrada, não queria me sentir humana novamente. Foi uma fuga para a natureza, para o selvagem que serve também para fugir um pouco da sociedade e encontrar o seu caminho e se curar. Há ainda o fato de o falcão caçar e isso é um conflito/embate diário com a morte, o que também é muito importante. Esse não é um daqueles livros que você chega e diz ‘eu estava triste e comprei um falcão e fiquei feliz novamente."


De fato o livro nos mostra esta fuga. A autora se isola com o seu Açor, no que de início seria uma fuga de si mesma e do mundo como o conhece. Quando finalmente está só, é que enfim começa a pensar no pai:


"...Agora podia pensar no meu pai. Comecei a considerar como ele lidava com a dificuldade. Colocar um lente entre si mesmo e o mundo era uma defesa contra mais do que o perigo físico;" ..."Vejo o mundo através de uma lente, disse ele certa vez, de modo um pouco triste, como se a câmera estivesse sempre lá, impedindo-o de se envolver, algo entre ele e a vida das outras pessoas."

Como uma válvula de escape, para não ter que lidar com o luto, ela se impõe então, o desafio de treinar a ave, o que se torna seu principal objetivo, embora em alguns momentos, sinta-se perdida.

"Desde a morte do meu pai, por vezes tenho tido a sensação de estar deslocada da realidade, estranhos episódios nos quais o mundo torna-se irreconhecível."

Para este treinamento, a autora vai se utilizar de todo o conhecimento adquirido tanto na prática quanto em livros, entre os quais, sua principal referência, é "The Goshawk", de T.H.White.

"White não sabia disso, e é por isso que sua primeira tentativa de chamar Gos é tão dolorosa de ler. Mas, o que mais me incomodou naquele lamentável episódio não foi a espera que nada ensinou ao falcão,  nem o sádico  puxão do fiador que lançou a pobre ave ao chão."

Entende-se que em alguns momentos são até interessantes e necessárias, as citações sobre White, embora em outros, tornem-se cansativas e irrelevantes.

Outro elemento por vezes cansativo ao longo do texto, são as meticulosas descrições acerca das técnicas da falcoaria, que para um leitor mais leigo, torna o livro um pouco "arrastado", motivando-o a talvez "pular" tais parágrafos (Não "pulei" nenhum, rsrsrs).

"Meus dedos tremem enquanto passo a ponta do fiador através do destorcedor e fixo este na extremidade dos jesses, amarrando com dois pequenos nós de falcoeiro...Solto o fiador mais uns cinco metros e guardo o restante dentro de um bolso com zíper no meu colete de falcoaria, para mantê-lo seguro.Depois separo a leash da ave do destorcedor e enfio em outro bolso."  

O ponto forte do livro é a estreita relação que se estabelece, aos poucos, entre a autora e sua ave, Mabel.

"Não havia alento maior para o meu coração em luto do que ver o açor atender ao meu chamado. Porém, era difícil agora, fazer qualquer distinção entre o meu coração e o da ave."

"Eu me sentia incompleta quando o açor não estava pousado no meu punho: éramos parte um do outro. O luto e o açor conspiraram para que essa estranha sensação surgisse."

Interessante também observar o quão difícil pode ser o diagnóstico de um quadro de depressão, principalmente após a morte de um ente querido, pois associa-se a tristeza e a apatia ao luto recente.

"Há uma época na vida em que você espera que o mundo seja sempre cheio de coisas novas. E, então, um dia você percebe que não é assim de jeito nenhum. Coisas que estavam lá e não estão mais. E entende, também, que precisa crescer nos espaços em torno deles, embora possa estender a mão na direção de onde as coisas estavam e sentir aquele vazio, tenso e brilhante, do lugar em que permanecem as memórias."

Bem, para finalizar, no desenrolar da narrativa percebe-se que na verdade o livro não trata de uma fuga, e sim da busca de si mesmo, e como isso pode ocorrer de forma inesperada.


"Eu tinha pensado que para curar a minha dor, deveria fugir para a floresta. Era o que as pessoas faziam. Os livros sobre natureza que eu tinha lido me diziam isso. Muitas buscas descritas em suas páginas foram inspiradas pelo luto ou pela tristeza.""Agora eu sabia o que isso era de fato: uma mentira fascinante, mas arriscada."




"F de Falcão" - Helen Macdonald - Tradução: Maria Carmelita Dias

Páginas: 288
Gênero: Não Ficção
Formato: 16 x 23 x 1,6 cm
Editora: Intrínseca
Lançamento: 08/06/2016

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