domingo, 6 de novembro de 2016

Resenha para "A garota no trem" - Paula Hawkins

O livro, à princípio, nos apresenta a história de Rachel, uma mulher agora divorciada e alcoólatra.

Rachel, embora desempregada, diariamente, pega o trem como se continuasse indo para o trabalho. Neste trajeto, além de visualizar sua antiga casa, onde agora mora o ex-marido com sua nova esposa e filha, ela também observa poucos metros à frente, a casa de um casal, que aparentemente é perfeito e acima de quaisquer suspeitas. 

À partir do desaparecimento de Megan Hipwell, a esposa perfeita do casal aparentemente perfeito, a vida de Rachel sofre mudanças.

O livro então, vai ser construído à partir da narrativa das três personagens femininas principais, a própria Rachel, Megan, e Anna, a esposa de Tom, ex-marido de Rachel.

Esta abordagem é interessante, e inclusive nos remete a outros livros que se utilizaram do mesmo recurso, como por exemplo: "Garota Exemplar" - Gillian Flynn e também "Destinos e Fúrias" - Lauren Groff, em que temos a história ora narrada pelo marido, ora narrada pela esposa, e no último, o livro é literalmente dividido em duas partes, a primeira feita pelo marido, e a segunda, pela esposa.

Mas, voltando ao "A garota no trem", o livro vai então intercalar a narrativa dessas personagens, apresentando no topo da página o nome de quem está contando os fatos, seguido da data e o período do dia (manhã, tarde e/ou noite).

Mesmo quando está contando a história sob seu próprio ponto de vista, Rachel nos é apresentada como alguém com baixa auto estima e com uma vida nada invejável.


"No trem, as lágrimas vêm, e não ligo se tem gente olhando; talvez pensem que meu cachorro foi atropelado. Ou que fui diagnosticada com alguma doença terminal. Ou que sou alcoólatra estéril, divorciada e prestes a morar embaixo da ponte.

Quando paro e penso, vejo como é ridículo. Como cheguei a esse ponto? Fico me perguntando quando foi o início da minha decadência;"
"Vou contar tudo: que perdi meu emprego meses atrás, que sábado à noite eu estava muito bêbada e que não tenho a menor ideia da hora que voltei para casa."

Megan, a "esposa perfeita", também em suas próprias palavras apresenta uma verdade diferente da imaginada por Rachel.


" E não posso nem me zangar com ele, porque ele tem razão em desconfiar  de mim, Já dei motivo para isso no passado e provavelmente vou dar de novo. Não sou uma esposa modelo. Não sei ser."(grifo meu)


E não somente em relação a sua personalidade como também em relação ao seu relacionamento com Scott, o marido.


"O comportamento que você está descrevendo...ler seus e-mails, revirar seu histórico de navegação...você fala como se fosse comum, como se fosse normal. Não é, Megan. Não é normal invadir a privacidade de alguém nesse grau. Muitas vezes isso é visto como uma forma de abuso emocional."


Numa de suas viagens dentro do trem, Rachel flagra Megan, beijando apaixonadamente um homem que não é seu marido. Na sequência, numa noite de sábado, Megan sai de casa, após uma briga com Scott, e simplesmente desaparece.


À partir daí, surgem suspeitos, e um deles é Rachel. Mas, como estava muito bêbada, não lembra de nada do que tenha ocorrido naquela noite. Diante disso, ela busca meios de auxiliar para que encontrem Megan, estabelecendo um grande jogo de quebra-cabeças, no qual se torna uma de suas principais peças.


Claro que a coisa toda do thriller policial é sem dúvida o principal mote e um dos grandes atrativos do livro. No entanto, é relevante levantar algumas questões também presentes ao longo do texto.


Dentre elas:


1) Alcoolismo, como é relação do alcoólatra com o vício, como este se manifesta e principalmente como a pessoa viciada se vê no mundo, no relacionamento com os demais e consigo mesma.


"A Rachel bêbada não mede as consequências, ela é excessivamente expansiva e otimista ou envolta em ódio. Ela não tem passado, nem futuro. Ela existe só naquele momento."


"Não sei. Não sei onde foi parar aquela força, não me lembro do momento em que a perdi. Acho que, com o passar do tempo, ela foi se dissipando, pouco a pouco, pela vida, pelo fardo de vive-la."


2) Maternidade, tema que permeia toda a narrativa, e fator importante ou no mínimo relevante na personalidade das três personagens.


"Talvez tenha sido aí. Talvez tenha sido esse momento em que as coisas começaram a degringolar, o instante em que nos imaginei não como casal, mas como família;" (Rachel)

"Eu me sentei num banco à beira desse espaço e fiquei observando mães e babás brigando com seus estorvos por comerem a areia do tanque. Alguns anos atrás eu sonhava com isso." (Rachel)

"Ele se decepcionou comigo. Nunca entendeu como é possível sentir saudade do que nunca se teve, e ainda chorar por isso." (Rachel)


"De vazio, eu entendo. Começo a achar que não há nada a se fazer para preenchê-lo. Foi o que percebi com as sessões de terapia: os buracos na sua vida são permanentes...você se molda a partir das lacunas." (Megan)


"Foi quando eu estava lavando o rosto depois, quando vi minha aparência cansada, o rosto marcado, manchado, uma aparência horrível, que senti aquilo de novo - a necessidade  de pôr um vestido e um par de sapatos de salto alto, fazer escova no cabelo, aplicar maquiagem e andar pela rua, os homens virando a cabeça para me ver passar." (Anna)


"Não é do trabalho que sinto falta...Tenho a convicção de que não há trabalho mais importante do que criar um filho, mas o problema é que esse trabalho não é valorizado." (Anna)


3) Violência Doméstica/Ciúmes/Abuso Emocional


"Minha mão faz toda força possível contra seu peito, mas não consigo respirar e ele é muito mais forte que eu. O antebraço dele pressiona minha traqueia, sinto o sangue pulsando nas têmporas, a visão esmaecendo."


4) Adultério


"Eu gostava de ser a outra. Adorava, na verdade. Nunca me senti culpada. Só fingia sentir." (Anna)


5) Mitomania - Na mitomania o paciente usa a mentira de forma consciente para enganar pessoas e tirar vantagens, ele nunca admite suas mentiras embora tenha plena consciência de que são histórias imaginárias, e também não se constrange quando suas mentiras são descobertas (fonte: www.tuasaude.com).


"Ele é um mentiroso nato. Já o vi em ação"

"Ele me engana sim. Sei que ele não é sempre cem por cento honesto a respeito de tudo. Penso naquela história dos pais dele - que ele os convidou para o casamento, mas eles se recusaram a comparecer por estarem com raiva...Sempre achei isso estranho..."

Assim, a história mesmo contada sob pontos de vista diferentes, é verossímil, consegue prender a atenção do leitor, e só vem reforçar velhos e conhecidos ditados como "As aparências enganam" ou "As coisas não são como são, mas como a gente as vê".

"Tenho uma lembrança cristalina de Scott falando sobre Megan, dizendo: Eu não tenho ideia de quem ela era. É exatamente assim que me sinto."

"...falsidades e meias verdades criadas para fazer com que parecesse uma pessoa melhor, mais forte e mais interessante do que realmente era. E eu engoli todas elas, caí em cada uma."

Fica a dica, boa leitura!



"A garota no trem" - Paula Hawkins - Tradução: Simone Campos

Páginas: 378
Gênero: Thriller
Formato: 16 x 23 x 2,1 cm
Editora: Record
Lançamento: 2015



Paula Hawkins é jornalista. Nascida e criada no Zimbábue, é radicada em Londres desde os 17 anos. Trabalhou como jornalista durante quinze anos antes de se tornar escritora de ficção. A garota no trem é seu primeiro livro policial e teve seus direitos adquiridos pela Dreamworks.






























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