domingo, 5 de fevereiro de 2017

Resenha: A improvável jornada de Harold Fry


Quando Harold Fry saiu de casa numa manhã de sol para colocar uma carta no correio, ele não imaginava que estava começando uma jornada inesperada até o outro lado da Inglaterra. O senhor aposentado decidiu de repente que ia caminhar até a casa de saúde onde uma velha amiga sofria o estágio terminal do câncer.

Harold não leva mapa, bússola, capa de chuva ou celular. Nem mesmo um sapato adequado. Tudo o que ele tem é a certeza de que precisa continuar andando.

Para salvar uma vida.

Essa é a sinopse que encontramos na contracapa do livro. 

A história é narrada em terceira pessoa, e a maior parte dos capítulos centra-se no próprio Harold, mas temos também alguns alternados, que são centrados na perspectiva da esposa de Harold, Maureen.

No decorrer do livro vemos que a jornada de Harold não é somente o cumprir a distância até a casa de repouso da amiga, mas também é uma jornada - a mais importante - em busca de um sentido para sua vida. Durante a viagem, Harold depara-se com seus dilemas, arrependimentos e lembranças - sua infância, adolescência, os desafios da vida adulta e principalmente seu relacionamento com a esposa e o filho. O que de cara nos chama atenção, é o fato de o personagem já ser um senhor de 65 anos, que sente a necessidade de fazer algo que faça sua existência valer a pena, pois até então considera ter apenas passado pela vida e não de tê-la de fato vivido.

"Harold passara a vida inteira baixando a cabeça para evitar confrontos e, mesmo assim, sua própria carne gerou alguém determinado a olhar nos seus olhos e discutir. Ele se arrependia de ter rido na noite em que o filho dançou."

"Ao caminhar, ele desatava o passado que passara vinte anos tentando evitar, e agora ele tagarelava e brincava em sua cabeça com uma energia própria um tanto louca. Já não via mais a distância em quilômetros. Ele a media com a memória."

"Ele sempre fora inglês demais,...ele era comum. Falta-lhe cor. Outras pessoas sabiam histórias interessantes ou tinham coisas a perguntar...Usava gravata todos os dias, mas às vezes se perguntava se não estaria se prendendo a uma série de regras que nunca existiram de fato."

"Às vezes ele acreditava que havia se tornado mais memória do que presente. Ele reviu cenas de sua vida, como um espectador preso do lado de fora. Viu os erros, as inconsistências, as decisões que não devia ter tomado, mas quanto as quais nada podia fazer."

"Não era simplesmente que ele tivesse feito tudo errado com a mulher e o filho. A questão é que havia passado pela vida sem deixar marca. Ele não significava nada."

É uma jornada bonita, com seus altos e baixos, e que sem dúvida nos faz refletir sobre nossas próprias vidas e nossas escolhas. Ficamos na durante todo tempo para que Harold encontre o que busca, que salve sua amiga, que se reconcilie com a esposa e o filho, mas principalmente que se reconcilie com ele mesmo. Vale a leitura!



"A improvável jornada de Harold Fry" - Rachel Joyce

Editora Suma das Letras

Tradução: Johann Heyss
Formato(s) de venda: livro, e-book
Páginas: 248
Gênero: Ficção Inglesa
Formato: 16 x 23 cm
ISBN: 9788581051659
Lançamento: 21/06/2013



sábado, 4 de fevereiro de 2017

Promoção Assinatura Jornal Rascunho



Olha só o que chegou por aqui... O novo livro de Daniel Galera, intitulado Meia Noite e Vinte. A capa é linda!!!

Este foi o escolhido na promoção do Jornal Rascunho para novos assinantes.

Boas expectativas para a leitura, livro muito bem recomendado! Logo mais resenha aqui no blog.


quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Resenha: Fora de mim - Martha Medeiros



Martha Medeiros é muito conhecida pelo romance Divã, o qual teve adaptações bem sucedidas para o cinema e teatro, e claro, também por suas crônicas. Ela é colunista dos jornais O Globo e Zero Hora.

Neste livro ela narra a jornada de uma mulher anônima que, ao terminar um relacionamento amoroso conturbado, se entrega ao sofrimento até vislumbrar uma realidade em que a dor não seja dominante.

Os textos da autora são muito bons, ela consegue abordar temas da atualidade, viagens, relacionamentos, com muita leveza, humor e sacadas inteligentes. E em "Fora de mim", não é diferente, nossa protagonista faz uma série de reflexões acerca de seu relacionamento recém terminado, e de sua relação com o mundo e consigo mesma.

"Felicidade é um resumo fácil, uma preguiça de investigar o muito mais que nos ergue diariamente, na época era o que me bastava, eu sabia onde estava e com quem, eu não estou infeliz, eu só estou perdida e não consigo mandar nenhum S.O.S...."'

"Uma sorte eu ser dessa época , o século dos individualistas, ninguém mais se atém ao rosto dos outros, quem saberia dizer a cor dos olhos do seu melhor amigo?""

"...a dor é a última ligação que mantenho com nossa história, ninguém pode me obrigar a seguir adiante, eu quero ficar onde estou, mesmo sem você, mas, de uma forma estranha, ainda com você, esse você que hoje já não é mais aquele  que viajou por tantas estradas ao meu lado..."

"Eu sei por que eu disse que te amava depois daquela transa, com tão pouco tempo de convívio: porque eu estava me amando pela primeira vez na vida."

"Mas a vida não é um estado constante de férias."

"Então um segundo pensamento atropelou o primeiro: em qualquer circunstância, com filhos, pais, amigos, trabalho, e mesmo estupidamente apaixonada por quem quer que fosse, eu teria sempre a vida só pra mim."

Mas, apesar da qualidade do texto, o livro perde o timing, pois se estende além do que deveria, em alguns pontos torna-se até um pouco repetitivo. Vai acontecer uma pequena reviravolta na história somente já próximo do final, à partir da página 91 (o livro tem 117 páginas).

Mesmo sim, para quem está a procura uma leitura leve, bem humorada e que mostra a vida como ela é, vale a pena.


"Fora de Mim" - Martha Medeiros

Editora Alfaguara
Formato(s) de venda: livro, e-book
Páginas: 117
Gênero: Ficção Brasileira
Formato: 15 x 23,4 x 1,0 cm
ISBN: 9788579622212
Lançamento: 01/05/2014









quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Luvbook: Conheça a Rede Social Brasileira para Autores Independentes e Leitores


Lançada no dia 22 de novembro de 2016, a rede social brasileira Luvbook é uma plataforma online para publicação e leitura de livros digitais. A rede adere ao sistema crowdwriting e abre um amplo espaço para que autores possam publicar e disponibilizar suas obras gratuitamente, alcançando visibilidade e a tão sonhada chance de terem seus livros lidos antes de alcançarem uma versão impressa.

A Luvbook é u
ma plataforma digital exclusivamente brasileira e foi criada para os escritores que já cansaram de esperar a resposta de editoras para publicarem os seus livros.  E com isso, a plataforma pretende contribuir com o crescimento da indústria literária brasileira, disponibilizando esse espaço para que os autores independentes possam publicar suas obras.

A rede social, com poucos dias no ar, já conta com uma grande quantidade de usuários cadastrados, entre autores e leitores. Além de já disponibilizar centenas de obras nacionais, que podem ser lidas gratuitamente. Bastando apenas um simples cadastro no site. Dos diversos livros disponíveis, os usuários podem contar com diferentes gêneros, desde romance a fantasia, ação a ficção científica.

Os autores poderão publicar os seus livros aos poucos, capítulo por capítulo. Possibilitando a ele a criação da sua própria base de seguidores, desde o início do processo de produção da obra até atingir o objetivo de alcançar mais leitores, ganhar mais popularidade e ser reconhecido nacionalmente.


A grande vantagem da plataforma, se comparada com outras similares, são os diversos recursos disponíveis para os leitores e escritores. O usuário poderá contar com diversos recursos, itens como a marca d´água com ID do usuário para coibir o plágio, emojis em comentários, opção curtir, curtir de emoções e um chat para conversas online com outros inscritos. Além de o autor poder curtir o comentário do leitor. Todas essas opções estarão disponíveis até o final deste mês na plataforma.

Para os que amam a literatura nacional, desejam conhecer a plataforma e começar a devorar os livros já disponíveis, basta fazer o seu cadastro pelo link: www.luvbook.com.br, ou acompanhar as novidades pela fanpage no Facebook (www.facebook.com/LuvBookBr/). Para mais informações ou contato, a rede social conta com o e-mail atendimento@luvbook.com.br, uma conta no Twitter (www.twitter.com/LuvbookBrasil) e outra no Instagran (@luvbookbrasil).

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Resenha: A filha perdida - Elena Ferrante




Considero difícil quem ainda não tenha ao menos ouvido falar em Elena Ferrante, um sucesso de crítica e público no cenário literário atual. Mas, para quem ainda não a conhece, Elena Ferrante é o pseudônimo de uma escritora italiana, que mantém em segredo sua identidade. Concede poucas entrevistas, estas, somente por e-mail e não participa de eventos para a promoção de sua obra. Sobre ela, sabe-se quase nada.

"Já fiz o suficiente por esta história. Escrevia-a."


“Escrever sabendo que não vou aparecer produz um espaço de absoluta liberdade criativa.”


“Não pretendo fazer nada (…) que possa envolver qualquer compromisso público em que eu apareça pessoalmente.”

“Eu não escolhi o anonimato, os livros foram assinados. O que eu escolhi foi a ausência. Há mais de 20 anos, senti o fardo de me expor em público. Eu queria me desassociar da história, depois de terminada.”  Elena Ferrante


Elena começou a publicar suas obras nos anos 1990. Mas a autora ganhou projeção internacional, apenas a partir da publicação de “A Amiga Genial”.

A escrita límpida e clara de Ferrante é apontada pelo editor da Biblioteca Azul, Thiago Barbalho, como uma das chaves de seu sucesso. Comparável ao neorrealismo italiano no cinema, seu estilo realista faz emergir a complexidade e o extraordinário da vida das pessoas comuns, segundo nos conta o editor.

O crítico James Wood escreveu que a própria autora diz gostar de escrever narrativas em que a escrita seja “clara, honesta e nas quais os fatos - fatos da vida comum - sejam  extraordinariamente atraentes quando lidos”. Para ele, um dos momentos mais lúcidos e brilhantes da prosa de Ferrante se manifestam quando suas narradoras femininas pensam sobre filhos e maternidade.


E é justamente o que acontece em a "Filha Perdida". Leda, é uma professora universitária, que está de férias no litoral sul da Itália. Ela é divorciada, mãe de duas filhas, que estão agora morando com o pai no Canadá. Nos primeiros dias na praia, ela volta sua atenção a uma família napolitana, barulhenta e até certo ponto grosseira, que lhe remete a sua própria família de origem, da qual "escapou" aos dezoito anos para estudar em Florença. Ao longo de sua estadia, alguns acontecimentos e o seu envolvimento com esta família, irão desencadear uma série de lembranças de sua infância e segredos da vida adulta que até então não revelara a ninguém. Muitas das lembranças e questionamentos de Leda, giram em torno do seu relacionamento com a família de origem, principalmente sua mãe, o relacionamento com o marido e as filhas e, acima de tudo, ela coloca abertamente reflexões acerca de seu papel como mãe. 


Afinal, de um modo geral, nos apresentam a maternidade como sendo algo único, excepcional, e extraordinário. Que o amor maternal seria instintivo, natural, e motivo de realização máxima de qualquer mulher. E é justamente esse o ponto que incomoda sobremaneira nossa personagem, que não se sente nem um pouco à vontade com a experiência materna.

"Quando minhas filhas se mudaram para Toronto, onde o pai vivia e trabalhava havia anos, descobri, com um deslumbre constrangedor, que eu não sentia tristeza alguma - pelo contrário estava leve, como se só então as tivesse definitivamente posto no mundo. Pela primeira vez em quase vinte e cinco anos, não senti mais aquela ansiedade por ter que tomar conta delas."

E ao observar principalmente, mãe e filha, na praia, Nina e Elena, é que Leda começa a ter lembranças de seu próprio passado e a fazer algumas auto reflexões. Como quando a pequena Elena se perde na praia:

"Um filho, é de fato, um turbilhão de aflições."

Ou quando se recorda das filhas ainda pequenas:

"Fui muito infeliz naqueles anos. Não conseguia mais estudar, brincava sem alegria, sentia meu corpo inanimado, sem desejos."

Notamos que Leda tinha outras aspirações, diversas daquelas inerentes a vida que levava, fosse sobre casamento, sexo, filhos, carreira...além da forte necessidade de reconhecimento como mulher e como profissional de valor.

"Só ficava atenta - quando puxavam minha saia, quando diziam que estavam com fome ou queriam um sorvete ou balão do vendedor que estava a um passo dali - só para não gritar chega, vou embora, vocês não vão mais me ver, exatamente como minha mãe fazia quando estava desesperada. Ela nunca nos deixou, mesmo gritando para nós que o faria; já eu deixei minhas filhas quase sem aviso."


"Eu também escondia muitas coisas obscuras, em silêncio. O remorso da ingratidão, por exemplo, a Brenda. Foi ela quem deu a Hardy meu texto, ele mesmo me contou....Hoje sei apenas que minhas páginas nunca teriam ganhado atenção não fosse por Brenda. Mas, na época não contei a ninguém, nem mesmo a Gianni, nem mesmo ao meu professor, e sobretudo, nunca a procurei. É algo que admiti na carta que escrevi às garotas...Escrevi: eu precisava acreditar que havia feito tudo sozinha. Queria sentir a mim mesma de forma cada vez mais intensa, os meus méritos, a autonomia das minhas qualidades."


"Eu não podia lhe dizer aos berros que já sabia tudo sobre mim mesma, que estava com mil ideias novas, estudando, amando outros homens, apaixonando-me por qualquer um que dissesse que eu era talentosa, inteligente, que me ajudasse a me testar."

Ou seja, constato após que este é mesmo um livro com uma boa escrita, clara, direta e objetiva, e com uma personagem feminina que tenta, nestas férias, exorcizar seus demônios, fazendo as pazes consigo mesma. Uma personagem que poderia facilmente representar os desejos e anseios de muitas mulheres da atualidade.




"A Filha Perdida" - Elena Ferrante

Editora Intrínseca

Formato(s) de venda: livro, e-book
Tradução: Marcello Lino
Páginas: 176
Gênero: Ficção
Formato: 14 x 21 x 1,0 cm
ISBN: 978-85-510-0032-8
E-ISBN: 978-85-510-0033-5
Lançamento: 13/10/2016