terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Resenha: A filha perdida - Elena Ferrante




Considero difícil quem ainda não tenha ao menos ouvido falar em Elena Ferrante, um sucesso de crítica e público no cenário literário atual. Mas, para quem ainda não a conhece, Elena Ferrante é o pseudônimo de uma escritora italiana, que mantém em segredo sua identidade. Concede poucas entrevistas, estas, somente por e-mail e não participa de eventos para a promoção de sua obra. Sobre ela, sabe-se quase nada.

"Já fiz o suficiente por esta história. Escrevia-a."


“Escrever sabendo que não vou aparecer produz um espaço de absoluta liberdade criativa.”


“Não pretendo fazer nada (…) que possa envolver qualquer compromisso público em que eu apareça pessoalmente.”

“Eu não escolhi o anonimato, os livros foram assinados. O que eu escolhi foi a ausência. Há mais de 20 anos, senti o fardo de me expor em público. Eu queria me desassociar da história, depois de terminada.”  Elena Ferrante


Elena começou a publicar suas obras nos anos 1990. Mas a autora ganhou projeção internacional, apenas a partir da publicação de “A Amiga Genial”.

A escrita límpida e clara de Ferrante é apontada pelo editor da Biblioteca Azul, Thiago Barbalho, como uma das chaves de seu sucesso. Comparável ao neorrealismo italiano no cinema, seu estilo realista faz emergir a complexidade e o extraordinário da vida das pessoas comuns, segundo nos conta o editor.

O crítico James Wood escreveu que a própria autora diz gostar de escrever narrativas em que a escrita seja “clara, honesta e nas quais os fatos - fatos da vida comum - sejam  extraordinariamente atraentes quando lidos”. Para ele, um dos momentos mais lúcidos e brilhantes da prosa de Ferrante se manifestam quando suas narradoras femininas pensam sobre filhos e maternidade.


E é justamente o que acontece em a "Filha Perdida". Leda, é uma professora universitária, que está de férias no litoral sul da Itália. Ela é divorciada, mãe de duas filhas, que estão agora morando com o pai no Canadá. Nos primeiros dias na praia, ela volta sua atenção a uma família napolitana, barulhenta e até certo ponto grosseira, que lhe remete a sua própria família de origem, da qual "escapou" aos dezoito anos para estudar em Florença. Ao longo de sua estadia, alguns acontecimentos e o seu envolvimento com esta família, irão desencadear uma série de lembranças de sua infância e segredos da vida adulta que até então não revelara a ninguém. Muitas das lembranças e questionamentos de Leda, giram em torno do seu relacionamento com a família de origem, principalmente sua mãe, o relacionamento com o marido e as filhas e, acima de tudo, ela coloca abertamente reflexões acerca de seu papel como mãe. 


Afinal, de um modo geral, nos apresentam a maternidade como sendo algo único, excepcional, e extraordinário. Que o amor maternal seria instintivo, natural, e motivo de realização máxima de qualquer mulher. E é justamente esse o ponto que incomoda sobremaneira nossa personagem, que não se sente nem um pouco à vontade com a experiência materna.

"Quando minhas filhas se mudaram para Toronto, onde o pai vivia e trabalhava havia anos, descobri, com um deslumbre constrangedor, que eu não sentia tristeza alguma - pelo contrário estava leve, como se só então as tivesse definitivamente posto no mundo. Pela primeira vez em quase vinte e cinco anos, não senti mais aquela ansiedade por ter que tomar conta delas."

E ao observar principalmente, mãe e filha, na praia, Nina e Elena, é que Leda começa a ter lembranças de seu próprio passado e a fazer algumas auto reflexões. Como quando a pequena Elena se perde na praia:

"Um filho, é de fato, um turbilhão de aflições."

Ou quando se recorda das filhas ainda pequenas:

"Fui muito infeliz naqueles anos. Não conseguia mais estudar, brincava sem alegria, sentia meu corpo inanimado, sem desejos."

Notamos que Leda tinha outras aspirações, diversas daquelas inerentes a vida que levava, fosse sobre casamento, sexo, filhos, carreira...além da forte necessidade de reconhecimento como mulher e como profissional de valor.

"Só ficava atenta - quando puxavam minha saia, quando diziam que estavam com fome ou queriam um sorvete ou balão do vendedor que estava a um passo dali - só para não gritar chega, vou embora, vocês não vão mais me ver, exatamente como minha mãe fazia quando estava desesperada. Ela nunca nos deixou, mesmo gritando para nós que o faria; já eu deixei minhas filhas quase sem aviso."


"Eu também escondia muitas coisas obscuras, em silêncio. O remorso da ingratidão, por exemplo, a Brenda. Foi ela quem deu a Hardy meu texto, ele mesmo me contou....Hoje sei apenas que minhas páginas nunca teriam ganhado atenção não fosse por Brenda. Mas, na época não contei a ninguém, nem mesmo a Gianni, nem mesmo ao meu professor, e sobretudo, nunca a procurei. É algo que admiti na carta que escrevi às garotas...Escrevi: eu precisava acreditar que havia feito tudo sozinha. Queria sentir a mim mesma de forma cada vez mais intensa, os meus méritos, a autonomia das minhas qualidades."


"Eu não podia lhe dizer aos berros que já sabia tudo sobre mim mesma, que estava com mil ideias novas, estudando, amando outros homens, apaixonando-me por qualquer um que dissesse que eu era talentosa, inteligente, que me ajudasse a me testar."

Ou seja, constato após que este é mesmo um livro com uma boa escrita, clara, direta e objetiva, e com uma personagem feminina que tenta, nestas férias, exorcizar seus demônios, fazendo as pazes consigo mesma. Uma personagem que poderia facilmente representar os desejos e anseios de muitas mulheres da atualidade.




"A Filha Perdida" - Elena Ferrante

Editora Intrínseca

Formato(s) de venda: livro, e-book
Tradução: Marcello Lino
Páginas: 176
Gênero: Ficção
Formato: 14 x 21 x 1,0 cm
ISBN: 978-85-510-0032-8
E-ISBN: 978-85-510-0033-5
Lançamento: 13/10/2016

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